Comecemos por onde acabamos da última vez... Melhor, voltemos onde tudo começou.
O trabalho acabou mais cedo, vi-me, assim, de repente com duas horas sem nada para fazer. Lembrei-me da inspecção militar obrigatória, e como até ficava a caminho passei por lá. Quando sai dei-me conta do que acabara de fazer: O caminho mais rápido obrigava-me a percorrer um trajecto que não percorria há muito tempo, desde o cinema de despedida. Um triste episódio, que mais valia ter sido evitado.
O mal estava feito, e os fantasmas tem de ser enfrentados, senão viram assombrações feias, medonhas, perseguidoras e intimidantes. Pôs-me a caminho... a cada passo que dava, a chuva aumentava (que ambiente condizente), o meu coração batia mais rápido. Comecei a transpirar (como desejei estar doente e ser essa a causa, mas não!). Era ansiedade, esperança, uma esperança mórbida, e ao mesmo tempo um medo, um terror, de que de repente ao virar a esquina a visse e nos tivéssemos de cruzar... mas não, não tive essa sorte (?).
O caminho continuou até às escadas, escadas tantas vezes subidas e descidas por nós evitando os olhares indiscretos dos estranhos, conhecidos e vizinhos. O primeiro degrau, um arrepio frio, Oh febre onde estás tu? As memórias voltavam a cada passo, a cada esquina. A porta de casa dela aproxima-se, as minhas pulsações disparam, pareço um míudo pequeno à espera das prendas, prestes a ser desiludido.
Passou... fica a memória dos seus cabelos presos nos meus dedos, do acordar e sentir o braço dela abraçando-me, do seu olhar enquanto trabalhava, do seu sorriso ao fazer-me rir. Recordações das conversas enquanto esperávamos que o cansaço vencesse, do seu beijo ao acordar, do seu corpo junto ao meu, de a ouvir dizer o meu nome num suspiro de loucura. Saudades dela, de nós. Até de ver o nome dela no meu telemóvel! Ridiculo? Talvez, mas as boas recordações não ocupam espaço.
O passeio continua e passa junto à porta de casa, sou tomado por um impulso. Tocar à campainha, e saber dela, do que tem feito. Onde está? Como está? E também aquela pergunta aterradora. Resisto. O que lá foi, lá foi. Afasto-me a cada passo e espero que a ansiedade me deixe, mas ao chegar à esquina já cabeça está a lembrar-se do primeiro olhar trocado, do primeiro toque casual, do arrepio que provocou, do primeiro dar de mãos, do primeiro beijo.
A chuva miudinha, a humidade faz-me sentir quente, desconfortável. Olho para trás, para a rua dela que não é, a esta distância, mais do que um cruzamento e sinto o coração a acalmar e vejo o final de tudo. Percebo porque não funcionou e não funcionaria. Só me resta esperar, se adiantar, que a paixão desvaneça como dantes.
"Ninguém disse que era fácil, mas ninguém alguma vez afirmou que era assim tão difícil" (Tradução livre do refrão de "The Scientist" dos ColdPlay). É o que me está constantemente na cabeça.
