Uma das coisas que mais me diverte nas conferências da empresa onde trabalho é a linguagem dos nossos gestores. Parece que eles levam à letra o que se diz sobre não se saber falar Português correctamente. Como se costuma dizer, se o mais velhos não o fazem, os mais novos também não o iram fazer. O exemplo parte dele.
A conferência a que tive de comparecer, porque estas coisas nunca são facultativas, era, entre outras coisas para nos falar sobre o estado da empresa no seio das mudanças que se vão realizar nos próximos meses. Nesse âmbito foram apresentados, pelos diversos directores, os resultados financeiros de alguns departamentos. No meio do aglomerado de asneiras, patadas na língua Portuguesa, piadas de humor duvidoso (na minha opinião), entre outras coisas, foram feitas algumas interpretações, na minha opinião, algo abusivas. Entre outras coisas foi apresentado um gráfico em que mostrava o "tempo de casa" dos funcionários. Nesse gráfico, cerca de 50% estavam no intervalo entre 0 e 2 anos, os restantes 50% dividiam-se entre 3 e 5 com aproximadamente 30% e mais de 5 anos com os restantes 20%. Espantosamente a seguinte afirmação brilhante (abusiva, cínica e altamente tendenciosa) foi proferida pelo Director máximo da empresa: "Como se pode ver pelo gráfico, o tempo médio de casa são os 4 anos, pelo que o tempo de permanência dos colaboradores na nossa organização são 4 anos". Se a primeira afirmação não me parece totalmente errada, visto que o peso de alguém que tenha 20 anos de casa e de alguém que seja acabado de entrar é o mesmo, a conclusão seguinte é claramente errónea. Se ele queria, de facto, fazer uma análise do tempo de permanência dos colaboradores na "organização" (como lhe chama) deveria considerar a moda do tempo de casa ou, em alternativa, o número de anos de casa de todos os trabalhadores que la já trabalharam. Mas a interpretação que ele fez foi a que ele quis fazer (não as que o gráfico transmitia) e as afirmações que ele proferiu foram as que ele queria (e não as referentes aos resultados patentes na informação visual).... Mais valia alterar os valores!! Podíamos perceber que não faziam sentido mas pelo menos não teríamos a certeza que tinham sido eles a adulterá-los. "Foram os tipos dos recursos humanos" ou ainda mais simples "Olha uma gralha".
Depois seguiu-se o cinismo no seu melhor. O custo de produção por hora por trabalhador. Este valor é calculado, de grosso modo, somando todos os custos de produção dos vários produtos da empresa e dividi-los pelo número (declarado) de horas de trabalho de todos os trabalhadores. O valor, em si, representa a quantidade de dinheiro que a empresa gasta, por pessoa, para produzir os bens. E, espantosamente, ao longo dos quatro anos, este valor tem vindo a baixar. Inicialmente era perto de 40€/por hora/por pessoa e agora, quatro anos depois, cinge-se pelos 30€/por hora/pessoa. Ora admitindo por hipótese que existe inflação, então os bens materiais e serviços ficam todos os anos mais caros. Mesmo admitindo que no meio duma organização com a dimensão da empresa em questão, com tanto desperdício que sabemos que as grandes organizações têm, e que muito se esforçam para minimizar, se conseguisse reduzir os desperdícios ao mínimo é óbvio que só se percebe a redução do preço do custo de produção com a estagnação das condições salariais dos mesmos funcionários, que segundo os mesmos iluminados se devem sentir orgulhosos por pertencerem a uma empresa estratégica ao nível nacional e ao nível da casa mãe.
Como é possível uma pessoa sentir-se orgulhosa por pertencer a uma empresa que usa as seguintes respostas (que se fossem anedotas só teria piada como cínicas... se calhar até eram!!!) À pergunta dum colega nosso sobre a forma como a empresa pensava em tornar, indirectamente, a hora de trabalho mais cara. Isto é, sem aumentar o valor do ordenado, a empresa poderia usar outras formas para que o preço da hora efectiva de trabalhos dos trabalhadores aumentasse. Foi dado pelo colega o exemplo da empresa Google que, com essa intenção, permitia aos trabalhadores um dia por semana para realizarem projectos pessoais. Uma espécie de dia de folga passado nas instalações da empresa a trabalhar para eles próprios (em o fruto do trabalho seria aproveitado pela empreas). A resposta, pretendendo ter piada, dada por um deles (não sei se o palhaço pobre se o rico se o triste) que eles já faziam mais que a Google, já davam dois dias em que nem era preciso virem ao local de trabalho. Ridículo.
No fim de contas acho que esperava mais de quadros supostamente superiores. E esse é que é o problema... a esperança.

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