abril 20, 2007

Os luxos deviam vir com manual de instruções ou Porque é que eu não nasci para ter luxos.


Estas questões surgiram-me no seguimento da minha recente viagem de trabalho ao Paquistão.

Quis o destino, sorte, acaso, ou outro agente externo que decide a nossa vida, que não fosse possível arranjar voos até Islamabad em classe económica. Como a minha ida era completamente incontornável quer do ponto de vista da ida como do ponto de vista da data o mais barato que se arranjou foi a ligação até Londres em Executiva e de Londres até Islamabad em primeira Classe. Não me perguntei quem quererá ir assim tanto para Islamabad mas o voo ia cheio. Mas já lá chegamos.

Se a viagem em Executiva, àparte de algumas mariquices, é só mais confortável do que luxuosa - Alguns minutos depois de entrarmos no avião dão-nos um paninho quente para nos limparmos e refrescarmos Os bancos são de uma qualidade ligeiramente superior aos da classe económica a que estou habituado, tem-se mais espaço para as pernas mas tambem nada de mais. Continua-se com o problema do rebatimento dos bancos.

Estando os bancos de trás ocupados, o rebater os bancos incomoda sempre a pessoa que está atrás. A comida é servida com talheres de metal e copo de vidro. Juntamente com a comida vem uns chocolatinhos a acompanhar e mais umas séries de mariquices. Sinceramente acho que a diferença entre a executiva e a económica em voos de curta duração não vale a pena, o mesmo não posso dizer duma viagem de longa duração, especialmente se for feito em Primeira Classe.

Comecando com as recepções no Aeroporto. As companhias aéreas disponibilizam umas salas de estar - chamadas Lounges - para os seus clientes com bilhetes de classe superior. Se a Lounge do aeroporto de Lisboa era confortável, sossegada e relaxante não se pode comparação com a Lounge de Primeira Classe em Londres. Desde criados a passear com vinhos (algo que não bebo e por isso não posso criticar a qualidade. Podiam dizer: "Dá Deus nozes a quem não tem dentes"), aperitivos, bolos e bolinhos, tudo à discrição. Tinha tambem um balcão onde se podiam pedir refeições completas, igualmente à discrição. Aliás nada naquela sala tinha preço... vinha tudo incluído no preço do bilhete de avião.

Ambas as salas avisavam os passageiros quando as portas de embarque iniciavam a entrada dos passageiros para reduzir o tempo de espera. Neste aspecto achei que a sala de estar na Portela fez um melhor serviço, porque a forma como fui avisado foi mais discreta e pessoal... além disso a menina era mais engraçada. :)

Ambas as salas disponibilizavam acesso sem fios à internet mas confesso que não experimentei nenhuma delas.

Se a sala de estar era assim o voo, que apanhei em Londres em direcção a Islamabad, era outro nivel completamente diferente. O avião onde fui era um Boeing 747/400 (Jumbo Jet) que consegue transportar uma quantidade enorme de pessoas nas mais variadas categorias. Desde económica, passando pela executiva até à primeira classe. Para as classes superiores disponibilizavam um balcão exclusivo para o embarque (para não misturarem com os demais). Ao entrarmos no avião éramos levados ao lugar por um dos assistentes de bordo. O meu lugar era um dos mais dianteiros do avião com uma cadeira completamente rebativel ao ponto de se transformar numa cama completa - mas isto só experimentei mais tarde. Tinha um ecra de televisão só para mim com cerca de 30 cm de diagonal, um comando para a televisão e outro para controlar a cadeira/cama.

Entretanto, poucos segundos depois, estava eu ainda de pé junto à cadeira, ainda a tentar tirar o casaco quando surgiu um assistente de bordo, que se apresentou e disse que seria um dos assistentes que nos iria servir durante o voo. Pendurou-me o casaco no armário e perguntou-me se eu queria um pijama para vestir.

Aqui confesso que o meu queixo ia saindo das articulações. Acho que devo ter ficado a olhar com ar de parvo para ele. Esperava muita coisa mas aquilo não. Lá agradeci e disse que não e de seguida ele perguntou-se se eu desejava alguma coisa para beber. Relembro que não estava no avião à mais de 1min. Normalmente as bebidas nunca são servidas antes do avião estar no ar. Ali, ainda o avião não estava cheio já me estavam a servir bebidas. Pedi um suma de maça (mariquinhas...). Ahhh a propósito, experimentei um sumo de tomate na sala de espera em Londres, jurei para nunca mais! Blahhhhhh

Continuando, lá me sentei, ajustei o cinto e preparei-me para passar umas horinhas sentado naquela cadeira/cama. Brinquei um pouco com a cadeira (Encosto lombar para a frente - zzzzzzzzte - encosto lombar para cima - zzzzzzzzte - para a esquerda, direita, todos os sentidos e direcções. Encosto de cabeça para cima e para baixo. Achei que era demais estar a tirar fotografias por isso não há provas alem do cartão de embarque. Sorry.

Pouco tempo depois lá surgiu a minha bebida e um pratinho de cacauetes. Passado uns largos minutos, já eu tinha descoberto que o ecra já estava a emitir uns programinhas para passar o teu tempo, o comandante ou alguém no seu lugar deu o aviso que estavam com atraso no carregamento das malas e que deveria ainda deveriam demorar mais uns 20min e poderiamos levantar voo. Lá fui vendo TV e ouvindo musica através duns auscultadores todos XPTO que eles distribuiram que ajudavam a cancelar o ruido (e que realmente funcionavam), quando começamos a andar.

Em fila indiana, uns aviões atrás doutros, lá fomos andando em direcção à pista de aterragem (eu queria usar algo como pista de alevantagem, mas acho que não existe). Quando chegou a nossa vez, tentei olhar por uma das escotilha que tinha uma vista ligeiramente inviesada para parte da frente do avião e tentar ver a pista. Não dava para ver nada pelo que me conformei a encostar-me e sentir a acelaração do bicho. É impressionante... e bastante.

O voo demorou aproximadamente 8h, com os atrasos que, segundo o piloto, nos foram impostos pelo controlo aéreo russo. Nesse tempo todo, que não dormi, tentei de tudo. Vi uns dois filmes recentes completos... não os teria ido ver ao cinema mas já que ali estavam, e não tinha nada melhor para fazer, aproveitei.

A hora das refeições foram, para quem como eu que está habituado à classe económica, muito diferentes. O jantar foi servido com menu e tudo. Escolhi as entradas, o prato principal, o acompamento, a sobremesa e a bebida, tudo "à la carte". Chegada a hora de dormir as luzes são diminuidas e são distribuidos, a quem deseje, cobertores para dormir. Como eu ainda estava no fuso horário de Lisboa não consegui dormir às 20h da noite (no fuso horario onde o avião estava já eram 0h), pelo que passei a noite (de viagem) em branco. À hora do pequeno almoço (de acordo com o fuso horário), um pequeno almoço à inglesa, foi servido.

Ao entrarmos no Paquistão, fomos avisados que o governo Paquistanês não permitia fotos aereas do território, pelo que nos pediam que não o fizéssemos (será que nunca ouviram falar do Google Maps?!). Ao aproximarmo-nos da pista, a tripulação andou a pedir a todos os passageiros que se apressassem a colocarem os cintos porque não era permitido fazer o pedido de aterragem à torre de controlo sem que todos os passageiros estivessem sentado e em segurança. Por este motivo se não estivessemos assim quando fosse feito o pedido teríamos de esperar mais 45 minutos no ar à espera da próxima vaga para aterrar (Quem diria que o Aeroporto de Islamabad é tão concorrido que as slots vagas de aterragem são tão raras).

Depois da aterragem ainda demoramos qualquer coisa como 45 minutos até desembarcar. Porquê?! Porque a aterragem é no mesmo sentido que o levantar voo e o único acesso é logo no inicio da pista, onde o avião toca no solo ao aterrar (ou começa a acelarar no levantar voo). Mais uns minutos á espera do carrinho com a escada e estava finalmente fora do avião.

Seguiu-se a viagem de autocarro até ao terminal e a verificação de identidade que, ao contrário do que estava à espera, foi rápida e sem problemas. Passei à fase de espera da bagagem, que aqui conseguiu ser quase tão boa como em Lisboa (vamos nivelar por baixo). Quase uma hora depois consegui a minha mala e resolvi enfrentar o exterior. Tinha sido combinado com o meu hotel, a viagem entre o aeroporto e o hotel, pelo que só tinha de encontrar o quiosque. Atravessei as portas do aeroporto em direcção à rua e foi confrontado com uma confusão imensa. Estão a ver as chegadas na Portela? Pois é parecido mas em vez de ter uma rampa de descida e zona claramente definida como saída, têm-se um quadrado de 3x3m em frente à porta sem ninguém e em redor centenas de pessoas todas à espera de algum familiar ou amigo que irá sair por aquela mesma porta, sabe-se lá quando. Lá dei com o corredor por onde as pessoas pareciam estar a conseguir atravessar o magote de gente e segui por ele fora. Apercebi-me duma placa com o nome do meu Hotel segurada por homem e fiz-lhe sinal. Esperei mais uns minutos pelo condutor da carrinha que nos ia levar ao Hotel e quando ele chegou segui-o (mais outro passageiro que entretanto surgiu) em direcção ao parque de estacionamento.

O parque de estacionamente é completamente indiscritivel. No mesmo espaço e na mesma faixa de rodagem (a propósito - eles, como boa antiga colónia britânica, conduzem à esquerda) circulavam (não ao mesmo tempo mas só porque a fisica não deixa porque por vontade deles até dava) carros, motas, bicicletas, pessoas, bagagens. Tudo à base do buzina para aqui, escosta ali, aperta mais desse lado, não te chegues ainda aquilo ia andando. Devagarinho mas iamos. Atravessamos o estacionamento todo com a bagagem a reboque até à carrinha, entramos, e começamos a andar (a saída era a meio do estacionamento). Nas palavras do outro passageiro - "An organized Caos!"

Demoramos mais meia hora até ao hotel. Fiz o check-in e fui até ao quarto. Pensei "Amanha, que ainda vai ser hoje, vejo o resto do quarto. Agora vou é dormir!" e pronto. Enfim a primeira parte da aventura estava terminada. Faltava o trabalho todo.

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